No mundo acelerado e de consumo exacerbado que vivermos, é possível encontrar exemplos de pessoas que fazem a volta de uma lógica: como desacelerar, respeitando o tempo da natureza e das pessoas?

O ator Marcos Palmeira nos apresenta, ou melhor vivencia e nos mostra exemplos Brasil afora de pessoas que estão fazendo isso.

Com a direção de João Amorim, estreia em maio o Manual de Sobrevivência para o Século XXI, focado em mostrar soluções aplicadas no dia a dia que podem mudar muita coisa. Mas acima de tudo de mostrar pessoas. Pessoas que buscam soluções respeitando a natureza, ou melhor, percebendo o tempo das coisas.

Conversamos com exclusividade com o ator na sua passagem por São Paulo para o pré-lançamento da Série.

Um papo com a cara do portal ECOERA e de tudo o que divulgamos aqui: faça durar, escolha melhor, respeite!

Boa leitura!

Entrevista à Paulina Chamorro

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ECOERA – Existe uma máxima que diz que a melhor educação é o exemplo, que é mais ou menos o espirito da Série. Como foram desenvolvidos os 13 capítulos do Manual de Sobrevivência para o Século XXI- Soluções para um planeta em crise?

O Manual foi uma ideia do João Amorim, diretor, que viu em mim a possibilidade. Ele pensou, bom se um cara que é um ator – (ator nessa figura inatingível que está no imaginário popular. Sabemos que não é verdade, mas tudo fica no imaginário) -, vai para campo e faz tudo isso pode ser um bom exemplo para que essas pessoas se sintam capazes de fazer aquelas pequenas mudanças. E deu a sorte de por acaso eu ser um ator que trabalha com isso.

A ideia é essa: são 13 capítulos mostrando ações que são feitas por pessoas que visam a melhoria da qualidade de vida da sociedade num modo geral. São pessoas que realmente estão preocupadas em trazer soluções.  Falamos na série de energias alternativas, de tecnologia de código aberto, espiritualidade, agroflorestal… Visitei os quilombolas Kalunga, estive com os ashaninkas, com os pataxós na Bahia, onde eles estão fazendo um resgate de sua cultura ancestral. Estive acompanhando a instalação de um projeto de energia com célula fotovoltaica também. Passamos por todas estas experiências mostrando que é possível viver de uma forma alternativa resolvendo nossos problemas. Não é só ser alternativo na vida, é entender o que realmente importa.

Falamos com pessoas que estão preocupadas com o consumo de água, consumo exacerbado das coisas. Se a gente continuar consumindo da forma que estamos fazendo, não temos muito retorno. Quisemos trazer na série algo que não fosse tão fatalista, que fosse como você falou, através dos exemplos, para que as pessoas se inspirassem.

Fizemos também um trabalho com o pessoal da Favela Jardim Nakamura, com o Fabinho, que faz um trabalho muito bacana: ele anda com uma mala com uma placa de energia solar. Ou seja, onde ele vai tem luz. Isso é incrível!  (Fabio Miranda de Moura tem o Instituto Favela da Paz)

São pequenas ações que geram grandes transformações e a gente foi atrás disso.

O João Miranda é um diretor ambientalista, que já tem um longo trabalho nessa área e a gente conseguiu através do Cine TV Brasil colocar no ar. Queremos ampliar as possibilidades de visualizações e já partimos para a criação do Manual 2.

Eu to muito empolgado! E feliz com a reação das pessoas, no sentido da descoberta de coisas legais que não conhecemos.

O fatalismo te imobiliza, te deixa engessado, faz pensar que não há mais nada que se possa fazer. É diferente quando você consegue mostrar que ainda dá tempo de virar esse jogo.

ECOERA – Para construir estas narrativas de quase reality você foi a campo mesmo. Ou seja, foi aprendendo junto com o público.

Isso! A série não é apresentada por Marcos Palmeira, é vivenciada por Marcos Palmeira. A ideia era essa. Ir junto, meter a mão na massa. E foi muito enriquecedor para mim. Um aprendizado enorme até para o meu trabalho como agricultor. Me abriu um leque enorme de novas possibilidades e novos contatos.

Vemos como perto da gente tem pessoas fazendo coisas interessantes e essa outra coisa legal do Manual, as possibilidades de criar uma rede de conexões.

ECOERA – Você falou do resgate e muito do que você citou são coisas que já fazíamos antigamente… Por exemplo trocar garrafas pelo uso do vidro de novo. E o mercado já está reagindo para este consumidor que não quer desperdício, ou quer o respeito à sazonalidade, ao clima, à produção, o solo, ao tempo…

Se você olhar com uma lupa todo este resgate ambiental na verdade é um resgate do que a gente já foi.  O milho na beira da mata era muito melhor, então você preserva mata para poder ter o milho. Fumo de rolo para conter praga no campo.

Acho que é esse o olhar que a gente tem que ter na vida: o que a gente realmente precisa consumir. Eu não posso levar uma sacola minha para o supermercado? São coisa meio básicas.

Mas somos ainda muito apegados ao plástico, ou de não pensar na reutilização desse plástico. Como era antigamente? Como nossos avós lidavam com isso? Tinha outro cuidado, outra dinâmica.

Hoje é vida é muito acelerada. O celular nos coloca numa vibração muito mais pesada que a própria dinâmica do dia. Tem um físico alemão que fala: o dia hoje não tem 24horas, tem 16 horas. É tudo muito rápido, emergencial. Mas quando você vai lidar com a natureza vê que essa emergência não adianta. A planta tem o tempo dela.

Então esse olhar para dentro, de respeitar os nossos tempos, é muito interessante e vale para qualquer pessoa, qualquer profissão. Você não precisa ser um ambientalista, não precisa ser um médico, um agrônomo, para saber dessas coisas. É só perceber.

ECOERA – Nessa vida acelerada, não podemos esquecer do macro: clima, biodiversidade…

No Manual colocamos a situação dos kalunga por exemplo. Povo quilombola na Chapada dos Veadeiros, fazem suas próprias roupas, fazem suas casas de adobe, ventiladas, térmicas.

Hoje é algo supermoderno fazer casa de adobe por causa da permacultura, mas os caras já faziam há muito tempo! Ou seja, as pessoas estão fazendo coisas, só que a gente não sabe.

Existe uma indústria muito pesada que é a indústria do consumo, que quer que você compre coisas que não tem durabilidade. Estraga, tem que comprar 10.  E estamos sempre sendo alimentados nessa ansiedade consumista.

Tem uma frase muito pertinente na agricultura orgânica que é: não existe praga, existe desequilíbrio. O Ernest (um dos entrevistados da série) fala não existe solo árido, existe solo mal manejado. Então tudo depende de como a gente trata.

É ter esse olhar que tudo está interligado, todas as coisas estão conectadas.

ECOERA – O Manual estará disponível nas redes?

Alguns resumos já estão no Youtube e depois que estar no Canal teremos uma janela aberta. A ideia é disseminar isso nas universidades, nas escolas, escolas públicas, e é realmente criar esse formato do Manual. Ali você não tem a solução definitiva para os problemas, mas mostra vários problemas sendo resolvidos. É fazer com que cada um de nós descubra a sua capacidade de resolver seus problemas.

Não apresentamos uma fórmula, mas mostramos que podemos abrir um pouco o pensamento e explicar de outra forma. É olhar para o que está se vendo o tempo inteiro, só que de outra maneira.

Esse é o grande barato do Manual.

 

*O Manual de Sobrevivência para o Século XXI estreia dia 6 de maio, no CineBrasil TV.