Todas as Luzes
Por Rafael Silvério @vamo.br

 

Chegamos exaustos em 2021, arrastados por uma escuridão, essa que recobre as retinas como uma membrana fina que tapa e renega qualquer outra interferência. Dizem que quando se tem um dos sentidos negados aguçam-se os outros. Eu também tenho medo, e o meu nasce sem identificar ou quantificar todas as coisas que movem no breu, mas nada é tão tenebroso quanto o desespero que surge no primeiro momento de imersão em nosso grande primeiro sofrimento. Quando não reconhecemos em nós mesmo a habilidade de recuperar a esperança, depois da chaga aberta em ferida.

Para uns tantos essa obscuridade foi realmente a primeira incisão sofrida, demandando em fendas nas bolhas de seus privilégios. Dissipando uma  realidade aumentada e tomando as concessões antes concedidas de volta.

Essa escuridão fez, para muitos, reconhecer que no escuro não se há cor de pele, ou não existe a barganha da beleza helênica eurocêntrica que nos assola, ou dos padrões dos corpos brancos que sempre ocuparão espaços de poder. Essa matéria opaca e densa que horizontalizou todos os espaços em 2020, proporcionou uma chance àqueles que corajosamente abraçaram a mudança e nela conseguiram identificar os momentos significativos da suas vidas, renegando ideias, coisas e pessoas. As submetendo a um crivo exigente de renovação.

Ainda estamos sob domínio da incerteza, mas se pensarmos friamente: o que está mesmo sob nossa responsabilidade? Qual o poder da nossa soberania sobre todas as coisas? Temos mesmo total controle dos nossos atos e pensamentos? As nossas reais necessidades foram atendidas com o consumo imposto por outros que nunca chegamos a reconhecer como semelhantes? Ou perdemos tempo tentando decifrar enigmas famintos por carne, no inalcançável  prazer da juventude irresponsável?

A reflexão me parece escura e resplandecente, o fato é: sempre estivemos em território da escuridão porém, como bons colonizadores, resolvemos nos apropriar e ocupar um espaço sem nunca pedir licença para um compartilhamento de ambiente usurpado de maneira violenta. Estamos reaprendendo a viver sob suas regras, tateando no escuro, sem saber o caminho que devemos percorrer, cruzar a noite escura para encontrar uma tranquilidade e bravura mesmo diante do medo.

Fomos orientados a driblar a verdade, porém, nesse novo ambiente, essa se manifesta de maneira sólida e ignorável até aos mais céticos, não há bolsos fundos o suficientes que caibam todos os segredos ou resistentes o suficiente para que tolerem todos os pesos dos medos. Estamos sendo o que sempre fomos, imperfeitos em busca de aprimoramento. Precisamos curar os heróis das nossas almas das frustrações de uma vida projetada que nunca nos coube, dos amores que nunca vivemos, da felicidade materialista que sempre nos diz que não somos o suficiente.

Temos duas opções: ou continuamos morrendo lentamente na busca de uma luz clara e branca ou abraçamos o nosso véu e curamos todos os danos para estarmos prontos para outra luz, talvez uma noturna que beije nossas partes boas, como o vento sopra a helva. De onde estamos, se levantarmos a cabeça e mudarmos a perspectiva, notamos que o céu ainda detém um cintilante brilho lunar no caminho e a guia dessa trilha está em nossas mãos.

De todos os egoísmos, o imperdoável é o sentir solidão, estando sozinho. Este asfixia os sonhos e petrifica os corações, impossibilitando que consigam superar. Então desejamos que essa noite que enche nossos pulmões consiga descontaminar todas as impurezas acumuladas de anos de exposição aspirando matérias estranhas pra dentro do corpo, deixem que ela cure, levem-a todas as frestas de suas mentes, esta irá escurecer pensamentos cruéis, protegendo as memórias mais bonitas, fortes o suficientes para que reproduza em nós a sensação do seu acesso à sua primeira paixão.

Se forem espertos, irão perceber que quando a vida se endurece o verdadeiro permanece irreversível, que se tivermos sorte vamos encontrar outros que nos amem nesse breu, e isso dá esperança, a sensação de que tudo é possível.

A escuridão é a mãe de todas as luzes.