O Re-Roupa é uma metodologia que propõe a criação de roupas novas a partir de matérias primas que eram consideradas resíduo: fins de rolo de tecido, retalhos, roupas com pequenos defeitos, propondo ir na contra-mão do processo acelerado que dita as tendências da moda. Além da preocupação com o reaproveitamento, faz parte do conceito do projeto valorizar a mão de obra local e capacitar costureiras para esse processo de Upcycling.

Na sexta-feira, dia 20 de abril, o Re-Roupa chega à São Paulo, vindo do Rio de Janeiro. Na Rua Dr. Vila Nova, no centro da cidade, o projeto terá um espaço próprio para concentrar projetos, compartilhar conhecimento e poder estar presencialmente com as pessoas. Marcando esse momento tão importante para o Re-Roupa, conversamos com a Gabriela Mazepa, a diretora criativa do projeto.

ECOERA – Vamos ao início: que incômodo você tinha ao criar o Re-Roupa?

Eu comecei criando roupa de uma maneira artística. E o lance de reaproveitar foi sempre muito natural, na minha família. Eu estava morando fora da Brasil, na Europa, onde morei 7 anos. Estudei numa escola de arte têxtil na França, e como estudante e sem dinheiro, era muito mais fácil garimpar e usar o reaproveitado do que criar uma coleção do zero. Fora do Brasil há uma facilidade de comprar em brechó, pela variedade. Tudo isso se transformou num projeto onde eu contava a vida das pessoas através das roupas. Eu nunca tive vontade de fazer moda tradicional, seguir tendências. Nem nunca estudei moda, minha formação é mais artística; fiz quatro anos de arquitetura, sou bailarina formada, o que me deixou muito próxima do figurino, do palco, e depois fui para essa escola na Europa. Então para mim, a roupa ocupava – e ocupa – outros lugares além do lugar da moda comercial. É muito mais um manifesto de dizer o que tem em comum a nós todos, nos vestindo e usando roupas, do que simplesmente o que vão nos impor como moda. Há 10 anos, na Europa, já estavam alertando que o mercado da moda não era tão justo quanto parecia. E assim que eu me formei, as pessoas começaram a me falar que o que eu fazia com as roupas de maneira artística poderia ser feito de maneira industrial. Porque se as pessoas têm roupas sobrando, as marcas também têm. Então muito cedo percebi que era um incômodo muito maior do que apenas excesso de roupa no armário. Era uma roupa feita de maneira não muito legal, principalmente na Europa, que terceiriza tudo (com países de terceiro mundo) e onde o feito à mão era sempre muito caro. E foi assim que a coisa começou.

ECOERA – Nesse tempo marcas, muito poucas, começaram a olhar para o seu desperdício, ou melhor, para seu “excedente”. Mas este olhar muito mais do que benevolente, vem com atraso. Você concorda?

Com certeza vem com atraso, o certo seria pensar em logística já para sobrar menos. Na verdade o que me incomoda e que acho que é o grande problema, é a lógica do consumo exagerado, e a moda é o celeiro para isso. As pessoas querem ter o que é tendência primeiro, e isso faz com que as marcas produzam muito. Mas a preocupação com o excedente não deveria ser mais que uma obrigação. Acho interessante algumas marcas se dando conta disso, estou inclusive trabalhando com a Farm, cujo processo está se dando de maneira muito clara e transparente. Acho que cada um tem seu papel e é fundamental que o mercado de moda se preocupe com a maneira que as roupas são feitas – mão de obra, matéria prima – porque o consumidor está cada vez mais preparado para isso. Mas a solução seria pensar a produção para que sobre muito menos. Não adianta sempre ter uma coleção de upcycling, porque significa que sempre vai ter excedente. O design deve mais inteligente, no que diz respeito ao resíduo que ele gera.

ECOERA – Nesta semana você inaugura mais uma etapa do projeto. Conta para gente!

O mundo deu muitas voltas e eu vim parar em São Paulo. Meu marido veio trabalhar aqui e eu achei quer seria um bom plano. Continuo completamente apaixonada pelo Rio de Janeiro e pretendo voltar a morar lá em algum momento. Mas São Paulo é uma cidade interessantíssima e sempre acolheu muito bem o meu projeto, por isso estou muito feliz de estar aqui. Eu já estava querendo uma sede para o Re-Roupa há algum tempo, depois desse atropelo que foi essa estadia na Malha, fiquei trabalhando em casa mais um tempo, mas estava sentindo falta de um espaço onde eu pudesse receber as pessoas, ter um showroom, onde pudéssemos prototipar as peças (que são feitas em cooperativas, geralmente nas periferias – nesse momento, no Capão Redondo e na zona norte de São Paulo). Estávamos precisando mesmo de um espaço físico, e achei um endereço interessante na Vila Buarque, no centro de São Paulo, onde o Re-Roupa vai acontecer, e de uma forma muito orgânica as coisas já estão acontecendo. Como esse movimento já existe há algum tempo, como eu falei, muitas pessoas já me procuraram para fazer cursos aqui, então em maio já teremos Oficina de Re-Roupa, Clube do Livro de um projeto parceiro, e um curso de Moda Limpa. As informações estão todas no reroupa.com.br/espaco. Tem uma página do site dedicada a isso, com foto, explicação do que vai rolar.

Festa de abertura do Espaço Re-Roupa

QUANDO: 20 de abril, sexta-feira, das 17:00 às 22:00.
ONDE: Espaço Re-Roupa – Rua Dr Vila Nova, 31

Dá uma olhada AQUI para saber tudo o que vai rolar!