Você abre o guarda-roupa, ele está lotado, mas você olha e chega à conclusão de que não tem nada pra vestir. Não se sinta uma ET, isso é muito mais comum do que você imagina. Talvez esse seja um sinal de que estamos consumindo mais do que precisamos e nos perdendo entre tantos itens.

Eis aqui uma ideia que tem feito a cabeça de quem procura ter uma vida mais leve: o armário-cápsula.

A ideia surgiu na década de 70, quando a estilista Susie Faux pensou em um armário com poucos itens, alguns essenciais que nunca saem de moda e outros atuais. Mas o conceito ficou mais conhecido depois que a blogueira Caroline Rector, do blog Unfancy, decidiu fazer um armário de 37 peças. A ideia que ela disseminou é muito simples: você escolhe algumas peças básicas, versáteis e que você ama usar e as divide por estação. As que sobraram ficam escondidas numa caixa. Quando uma estação passar, você vai resgatar roupas que nem lembrava mais que tinha e elas parecerão novas!

Transformar um armário comum em um armário-cápsula é uma tarefa nada tão fácil. Requer desapego, praticidade e revisão de conceitos.

A consultora de estilo Gabi Barbosa aderiu a essa moda e conta ao Portal ECOERA como foi a experiência.

 ECOERA – O que te levou a ter um armário-cápsula?

O armário-cápsula apareceu numa época em que eu estava numa transição: terminando a faculdade, começando a trabalhar em agência de publicidade, me mostrando mais para o mundo. E eu olhava para o meu guarda-roupa e não me via mais representada por ele, ele já não me acompanhava mais. Então vi no armário-cápsula uma oportunidade de me conhecer mais e melhor e descobrir como poderia traduzir as minhas novas necessidades em roupas. Além disso, era um passo adiante para começar a possuir menos coisas, dando mais ênfase na qualidade.

ECOERA – Tem outras coisas mais que você reduziu na sua vida em termos de quantidade?

Acho que essa jornada rumo à valorização da qualidade sobre a quantidade acaba acontecendo em vários setores da nossa vida. Possuir tantas coisas começa a ser um fardo e uma dificuldade na hora de se organizar. E não falo só em relação a itens materiais — é uma maneira de enxergar a vida com outro viés, buscando mais experiências do que coisas, selecionando melhor as pessoas ao redor e se conhecendo a fundo.

ECOERA – Quantas peças você tem em seu armário-cápsula?

Uma das coisas que fiz questão de ressignificar no meu armário-cápsula foi a contagem de peças. Para mim, crucial é que o guarda-roupa seja enxuto e eu consiga ver claramente todas as peças que estão nele, cada uma em um cabide diferente. Independente do número, sabe? O processo precisa ser leve e fluido; se começamos colocando muitas condições e nos martirizamos por não seguirmos essas condições, tem algo errado. Mas devo ter por volta de umas 40 peças, 50, não sei ao certo. O que é importante pra mim é justamente essa clareza visual assim que eu abro as portas do armário, e só.

ECOERA – Como se dá a separação entre as roupas do armário-cápsula?

Como ele é “cápsula”, apenas estão à mostra as roupas da estação vigente. No verão, itens mais leves e fresquinhos ficam em maior quantidade no armário; no inverno, essas roupas dão lugar a casacos mais pesados e tecidos mais grossos. As peças que não estão em uso são guardadas em um lugar específico, longe da vista. O objetivo é ir adaptando o armário para cada temperatura diferente, trocando algumas peças pontuais para combinar com o momento. Aqui no Brasil, temos estações do ano bem diversas. No norte e nordeste, não há a noção cinematográfica de outono/inverno, mas há períodos mais chuvosos. Já no sul, o frio e o calor são rigorosos. Então, vai de cada um adequar o período para si mesmo, para o seu cotidiano e para as estações do ano na sua cidade.

ECOERA – Você acha que vivemos uma mudança nos hábitos de consumo ou ainda é muito cedo para pensarmos isso?

Particularmente não acho que exista “muito cedo” ou “tarde demais” para pensar em mudança de hábitos de consumo, porque se faz necessário nessa transformação um grande mergulho para dentro de si. Estamos sempre em constante mudança, revisando nossas certezas, nossas opiniões e, por consequência, nossos hábitos também. Quanto mais pessoas começarem a se atentar para isso, melhor para elas mesmas e para o planeta.

 

Entrevista à Camila Doretto.