Neta do lendário Jacques Cousteau, a ambientalista francesa Céline Cousteau conversou com nossa editora Paulina Chamorro sobre o documentário ‘Tribes on the edge’, filmado no Vale do Javari, no Amazonas. E aproveitando o mês da água, falou um pouco sobre sua relação – e também da família Cousteau – com as águas.

 

ECOERA: Como está e o que você planeja para o lançamento do documentário Tribes on the Edge?

Estamos na fase final da pós-produção. Já fizemos toda a edição. Agora estamos na sonorização, trilha original e terminar uns detalhes de animação de mapas e desenhos. Antes do final do ano, penso que em dezembro o documentário já estará pronto. Para o lançamento, estamos vendo este ano nos festivais de cinema, começando na América do Norte, espero muito em Brasil e Europa.

Ainda estamos na fase de inscrição de vários festivais, por isso não posso detalhar quais são todos.

Já começamos uma campanha de impacto, que tem três partes: educação, conscientização e advocacy. Esta terceira é a mais ativista. A parte de educação foi lançado em abril numa parceria com o projeto Skype In the Classroom. Já falamos com mais de 1500 estudantes, em 45 aulas, de pelo menos 6 países diferentes falando sobre Amazônia e indígenas.

A segunda parte, conscientização, será trabalhada em setembro e outubro de 2018, com o lançamento de lesson plans para escolas com estudantes entre 9 e 11 anos. Todo baseado na Amazônia e a floresta em si, flora, fauna, sociedade e a conexão de tudo isso com o mundo, para sinalizar a importância destas tribos e deste ecossistema para o clima global.

Ainda em educação, em abril e maio deste ano, quando o documentário estiver rodando nos festivais, vamos fazer um novo esforço de divulgação destas informações com Skype in the Classroom novamente. Com isso fecharíamos um ciclo de quase um ano.

Além disso estamos explorando a possibilidade de entregar uma atividade de educação para os povos indígenas do Javari, mas no momento está mais como um projeto piloto, um teste. Temos que conversar muito bem com os povos indígenas do Javari e isso o farei ainda este ano, quando estiver no Brasil. Para isso tenho um parceiro no México para colocar entregando informações acessíveis através de uma espécie de wifi, mas em intranet. Desta maneira também entregaríamos uma parte educativa para os povos do Javari.

E para a terceira parte da campanha de impacto, a advocacy, que é a que espero seja mais duradoura, tem o objetivo de apoiar os que já estão defendendo os direitos de territórios indígenas no Brasil, instituições como ISA (Instituto Socioambiental) e Univaja (União dos Povos Indígenas do Javari). Isso porque os povos indígenas do Javari necessitam representatividade em conferências internacionais, ter forças para entender seus direitos e como representar-se. Também vamos apoiar associações que já estão trabalhando no Brasil por direitos indígenas.

E finalmente faz parte do advocacy uma espécie de crossover internacional de conscientização, para realmente falar sobre a importância dos povos indígenas ao redor do mundo para a proteção da biodiversidade, para proteger do desmatamento, que tem impacto nas mudanças climáticas. E proteção da biodiversidade também tem a ver com a proteção de fármacos futuros. Ainda falta encontrar soluções para doenças e a Amazônia tem algumas chaves para isto.

A mensagem com o Advocacy é a defesa dos direitos indígenas sobre seus territórios, principalmente no Brasil, com uma mensagem e um foco também internacional.

Sobre as notícias internacionais, acerca da suspeita de massacre contra povos isolados no Javari, é muito importante que estas investigações continuem, e que os que mataram indígenas, contatos ou isolados, devem ser encontrados e levados à justiça.

 

ECOERA: Como é a relação da sua família com a água? A Amazônia não é só floresta, é muita água também! Como você explicaria esta relação?

Tem algo muito importante de lembrar, não só para as pessoas que vivem em países que tem a Amazônia, mas também para o mundo, que é que o que acontece com as águas deste bioma afeta os oceanos. E quando há desmatamento, quando há seca na Amazônia, como aconteceu há alguns anos, diminuem as chuvas em outros lugares. Há um projeto muito interessante que explica a importância da Amazônia sobre a água que é o projeto do casal Moss (Gerard e Margi), Rios Voadores. Explica muito bem, como os vapores da floresta amazônica chegam até a atmosfera e de lá segue esta umidade com as correntes de vento, como rios mesmo, e “caem” em forma de chuva em lugares como sul do Brasil.

A importância da água não é só a que está no rio, mas o que acontece com a água em todas as formas na Amazônia. E como afeta o resto do mundo. Acho que os brasileiros têm que entender que o ecossistema da Amazônia está conectado com a falta ou a presença de água em todo o país. E tem mais: esta chuva, esta água, tem impacto até a América do Norte. Pela mesma razão.

O desmatamento na Amazônia tem impacto importante nas mudanças climáticas, por exemplo. 20 % da água doce do mundo sai da Amazônia. É uma porcentagem enorme. E também, muitos estudos mostram que os povos indígenas são guardiões deste ecossistema e por isso é muito importante que os defendamos. Eles sabem proteger o meio ambiente só vivendo ali, são os guerreiros de primeira linha na proteção ambiental.

Também a água que sai do Rio Amazonas, que são vistas com imagens satélites e parecem penas, saem direto para o oceano atlântico. Então se o Amazonas muda, se há muita poluição, ela também vai para o mar.

Talvez as pessoas pensem: porque deveria me importar? Se você nada no mar, deveria se importar. Se come algo proveniente do mar, deveria importar. Se você navega, deveria importar. Tudo isso tem um impacto em nível global.

O que tenho vivido na minha família é uma forte conexão com a água em qualquer forma. Com o entendimento, com o conhecimento do meu tempo no mundo. Da importância de uma pessoa para proteger, mudar, impactar de maneira positiva o futuro. E acredito que é o dever de cada um educar-se sobre isso. E quando temos educação, informação sobre este tema, tem imediatamente a responsabilidade de agir, de mudar sua maneira de fazer as coisas. Não de viver com menos ou de deixar algumas coisas de lado. Acho que muita gente pensa: “ah deve ser muito chato viver sempre pensando no meio ambiente, que não podemos ter tudo o que queremos”. Mas não é assim. Cada um pode escolher melhor.

E isso aprendi com minha família desde criança. Viajamos pelo mundo todo, entendendo o que há no planeta, conhecendo diferentes culturas, idiomas, formas de ser, pensamentos, e isso nos conecta. Eu me sinto conectada com o mundo através das experiências que tive conhecendo o mundo. Meu dever como parte da família Cousteau, meu dever como ser humano, é compartilhar isso. Eu tenho o privilégio de poder viajar, de poder explorar, de poder conhecer e de poder levar histórias do que está acontecendo no mundo e poder compartilhar, contar isso. E para mim é um orgulho de fazer parte desta família, que tem feito isso há três gerações.