A Amazônia, um patrimônios natural valioso e a maior reserva natural do planeta, tem um dia só para ela: 5 de setembro. O bioma, composto por sete milhões de quilômetros quadrados – cinco milhões e meio de florestas-, é fundamental para o equilíbrio ambiental e climático do planeta, bem como a conservação dos recursos hídricos.

O dia da Amazônia é mais que uma homenagem ou uma celebração a essa extensa área verde tão importante. É principalmente um alerta para conservação, para voltarmos a atenção ao que tem sofrido este bioma, como a extração de madeira, mineração, obras de infraestrutura e a conversão da floresta em áreas para pasto e agricultura.

Para este dia tão emblemático, a marca de tênis Vert Shoes (que completa 5 anos) convidou o fotógrafo Hick Duarte, conhecido por contar histórias autênticas, para passar 5 dias na Floresta Amazônica, produzindo o material para documentar como vivem as comunidades dos seringueiros que geram a borracha para a Vert.

Saiba mais sobre a a borracha nativa da Amazônia da Vert!

O início da viagem foi em Rio Branco, no estado do Acre, passando por Feijó e cruzando o Rio, onde são localizadas as comunidades e os seringais. Foram percorridas as comunidades de Matias, Santo Antônio e outras menores. A equipe acompanhou os habitantes nas estradas de seringa. Lá é extraída a seiva que se transforma em borracha. Além do trabalho, no registro também é possível ver como vivem essas comunidades.

O trabalho de extração de seringas é feito por pessoas que conservam honra e respeito pela floresta. A seringa é uma das únicas formas de manter a floresta viva, as árvores nascem em abundância de espécies diferentes então sempre estarão ali.

Confira o depoimento do fotógrafo Hick Duarte sobre essa visita:

“A primeira impressão sobre uma viagem para dentro da Floresta Amazônica tem muito a ver com o impacto da imensidão da natureza. Assim que se começa a avançar pelo curso do rio, você é tomado por algo que eu descreveria como uma claustrofobia ao contrário. Ao invés do medo mórbido de permanecer em espaços fechados, o que se sente lá é uma vontade instantânea de se explorar espaços abertos, gigantes. São proporções e formas muito raras, que passam longe de qualquer outro ambiente de natureza bruta que eu já tive contato. É a natureza em sua brutalidade e ao mesmo tempo em sua delicadeza ímpar. Plantas nunca antes vistas, ar puro, vida na água, curvas desenhando um percurso de horas pelo rio que a cada minuto só te deixa mais curioso sobre a jornada. O quão dentro dá pra chegar?

Nossa parada inicial foi na comunidade Matias, onde vivem o Seu Zé, sua esposa e seus cinco filhos. A ideia de vir alguém de fora para documentar seu trabalho e estilo de vida, para minha surpresa, foi recebida de forma muito positiva. Eles são muito orgulhosos do que fazem, muito pacientes em explicar cada dúvida, adoram contar histórias curiosas da floresta e, apesar de toda a simplicidade e escassez de recursos, não hesitam em compartilhar todo o alimento e espaço para melhor te acomodar.

Logo de cara um dos filhos mais novos do Seu Zé me chamou muito a atenção. Dimas era um menino enérgico, o mais à vontade na mata, sorriso no rosto o tempo todo. Ao mesmo tempo que transborda a inocência digna de um garoto de oito anos que cresceu na floresta, ele também exibia uns trejeitos de adulto, comportando-se quase como um “mini-homem”, certamente por acompanhar o pai em quase todos os seus movimentos. Mas talvez a principal característica do Dimas fosse uma constante curiosidade por tudo ao seu redor. Ao contrário das outras pessoas que às vezes hesitavam em interagir com a câmera, ou se mostravam tímidas para um diálogo maior, Dimas estava sempre disposto, te olhando no olho, perguntando tudo o que não sabia sobre foto, vídeo, câmera, telefone, e mais do que isso, querendo experimentar tudo aquilo também com as próprias mãos. Adorava conversar e te apresentar as casas da comunidade, os animais, falar das plantas, da escola, tocar a sua violinha ou a sanfona do pai. Dimas foi um parceiro fundamental nessa viagem.

Outro filho do Seu Zé também foi muito parceiro e nos rendeu muitas boas imagens. Chico era um menino mais velho, de vinte e poucos anos, responsável por trabalhos um pouco mais exigentes fisicamente. Ele colhia o açaí e também era quem fazia a caça à noite. O exercício de colher açaí na Amazônia definitivamente não é para os fracos. Fiquei impressionado com a primeira vez em que ele escalou uma árvore de uns 30 metros numa velocidade surreal para pegar as folhas carregadas de frutos. Num intervalo de 10 minutos ele tinha escalado umas 3 árvores – estava com uma certa pressa porque o céu ameaçava chover. Não que a chuva o fizesse parar. Na hora em que ela desceu e engrossou, Chico e seus outros dois irmãos começaram a debulhar o açaí, arremessando a folha contra o chão para que os frutos se separassem e pudessem ser ensacados. Chegamos exaustos de volta à comunidade, mas uma hora depois Chico já estava se preparando para adentrar a mata novamente, dessa vez para fazer a caça para o jantar. Ele disse que por lá deveria ficar umas quatro horas, então nessa atividade eu preferi não acompanhá-lo. Mas era interessante ver como o Chico parecia movido por estar dentro da floresta, seja lá qual fosse o ofício. Uma espécie de adrenalina que ele saciava com o simples estado de estar cercado pela mata fechada.

Os dois primeiros dias foram importantes para nos ambientarmos na comunidade. Criar um laço inicial com os moradores, se adaptar às acomodações, aos hábitos de alimentação e locomoção (chovia bastante então o solo era muito instável, em muitos lugares virava barro total). Era preciso também entender que o tempo na floresta é diferente. Interrupções que temos no ambiente urbano com o celular ou a internet não existem lá, por isso os dias eram super produtivos. Me dei conta disso quando perguntei ao motorista do nosso barco, que também morava por ali, se ele não sentia falta da cidade. Ele respondeu que não, porque na floresta não existem distrações. “Tudo o que eu mais preciso está aqui: minha mulher, minha filha, meu alimento”.

No terceiro dia, finalmente adentramos a estrada de seringa. Acordamos às 5h30 para tomar café e às 6h já estar na floresta. Seu Zé e Dimas pareciam bem animados. Definitivamente não foi um combinado, mas eles estavam vestidos de forma tão similar que mais parecia um uniforme. E o melhor: as roupas eram em tons de verde, amarelo e azul. Adentrando uma mata verde, sob um céu azul, plantas e frutos amarelados no percurso. Sempre acreditei em uma direção de arte orgânica, que acontece quando você se cerca de elementos reais, unidos por uma verdade e uma narrativa que existe muito antes de você chegar, mas o fato daquilo estar acontecendo diante dos meus olhos era um verdadeiro deleite.

Sem contar a coordenação de movimentos e a séria fixação do filho por tudo o que o pai fazia. A extração da seringa é um processo cheio de etapas, que te exige paciência e técnica apurada, e Dimas parecia saber bem disso. Enquanto o Seu Zé ia de árvore em árvore fazendo os primeiros cortes no caule e posicionando o baldinho aonde cairiam as primeiras seivas, Dimas ia atrás descrevendo o que o seu pai estava fazendo, orgulhoso em saber explicar tudo com detalhes, e responder todas as nossas eventuais dúvidas. Em alguns momentos de empolgação ele verbalizava alguns planos. “Quando vocês voltarem vamos ter construído um batelão pra gente ir ainda mais longe, e vamos ter mais estradas de seringa pra gente ter muito mais borracha”. Seu Zé, concentrado, dava uns sorrisos de canto nessas horas. Sabia que estava a frente de uma família muito especial, vivendo um momento meio mágico, especialmente no que se refere à relação pai e filho, à transferência de conhecimento, valores e vivências.

À noite, revendo as imagens antes de dormir, eu constatei que provavelmente isso tenha me tocado tanto por dois motivos específicos. O primeiro era a radical diferença de contexto. Para um menino que cresce na cidade, essa relação pai e filho se dá de outra forma, cercada por uma série de interferências sociais. Para o bem e para o mal, essas variáveis sociais acabam modificando os rumos educacionais e os valores de uma criação. Mas isso eu deduzo por observação dos meus próximos, porque perdi meu pai aos 4 anos e tive essa relação pai e filho interrompida (segundo motivo). Essa atração imediata também pode ter vindo daí.

Santo Antônio, a segunda colocação que visitamos, era um pouco maior. Lá estava localizada a escola e a igreja, por isso muito mais famílias circulavam por lá. Foi muito legal conhecer mais gente e entender melhor o contexto de comunidade em que Seu Zé, Dimas e todos os outros irmãos estavam inseridos. Em Santo Antônio também morava o casal mais velho da região. Com seus quase cem anos e muita história nas costas (o vovô tinha um quadro na parede que o exibia como um soldado da borracha em 1942), eles nos receberam um tanto mais sérios, mas claramente de braços abertos. As coisas eram um pouco mais movimentadas em Santo Antônio. Casas estavam sendo construídas para os filhos mais novos que estavam se casando, o porto à beira da comunidade era um ponto de encontro/descanso para os barqueiros, o clima geral era de sempre estar chegando e saindo gente. A cena da vovó sempre acenando e abençoando as partidas ficou na minha cabeça.

Mas hora ou outra, pós-viagem, volto a pensar naquela manhã na estrada de seringa, Seu Zé e Dimas em ação. Talvez só ali dentro da floresta, com atenção plena para observar como vive e se relaciona um pai e um filho imunes às distrações a que somos submetidos fora dela, eu estivesse assistindo a alguns dos momentos mais puros e essenciais no desenvolvimento de uma família. O amor fraterno em sua forma bruta, revelando-se a partir da transmissão de um ofício.”