Nos últimos dois anos, as buscas por moda sem gênero cresceram 635%. As buscas por “roupas usadas” aumentaram em 97% no último ano. O que explica esse fenômeno?

Para nos ajudar a encontrar respostas, conversamos com Amanda Sadi, que trabalha no Google há 7 anos, sempre com o YouTube, estudando o comportamento por dentro e por trás da plataforma. O trabalho dela consiste em mapear tendências, estudar comportamento e gerar insights a partir da plataforma do YouTube e as buscas no Google. Ela é responsável pelo BrandLab Dossiê, publicação que identifica e amplifica temas que estão na pauta e ganham uma nova leitura através de conversas no YouTube e dados Google. Como exemplo: A Revolução dos Cachos e A Busca por Diversidade no Brasil.

Dá uma olhada só no nosso papo. Esclarecedor!

ECOERA: Recentemente houve um aumento nas buscas com temas ligados à diversidade. Com a sua experiência, o que explica isso?

Meu ponto de vista é que tudo se resume a uma palavra: Representatividade. Você não pode ser o que não pode ver. O formato do YouTube permitiu que estes assuntos pudessem ganhar força. O aumento por temas ligados à diversidade são também um reflexo de influenciadores na era digital que estão apoiando e levantando estas bandeiras. Hoje, no YouTube temos influenciadores ligados a body positiveness, a moda consciente, temos vários representantes LGBTQ+ que estão abertamente falando sobre isso e trazendo estes temas a tona. Estas pessoas estão jogando luz a temas que nunca antes foram discutidos e estão dando voz a pessoas que sempre foram silenciadas e agora se sentem representadas por figuras como estas. Estamos quebrando tabus e desmistificando temas como nunca antes.

ECOERA: Pegando esse gancho, como você enxerga a tecnologia, como ferramenta de busca por conhecimento/informação e de mudança (de comportamento, atitudes)?

Acredito que informação é poder. Primeiro, precisamos entender a busca como uma ferramenta de aprendizado. Quando as pessoas são estimuladas, ficam curiosas, ou não sabem algo, a primeira coisa que elas fazem é pesquisar sobre isso no Google. Elas aprendem através de uma busca no Google. No meu entendimento, o Google é um termômetro do que está sendo discutido e como isso está ganhando força. Por exemplo, as buscas por moda sem gênero cresceram 635% nos últimos dois anos. As buscas por cabelo raspado feminino cresceram 460%. Estas são buscas que estão crescendo absurdamente porque antes não era falado sobre isso, não era estimulado que as pessoas pudessem se expressar ou se enxergar dessa maneira. Agora, isso é uma possibilidade. Isso é uma forma de expressão. Nesse sentido, a tecnologia empodera e dá força para movimentos ganharem tração. Ela dá liberdade, para pessoas se informarem e formarem sua opinião.

ECOERA: De que maneira poderíamos usar a tecnologia a favor do consumo consciente?

Existe uma tecnologia em específico que acredito pode ser muito útil para o consumo consciente: Blockchain.
Blockchain tem o potencial de entrar e transformar qualquer categoria. Na moda consciente não poderia ser diferente. Imagina o potencial que Blockchain tem como uma ferramenta de transparência. Seria possível rastrear da onde vem o material e tecido que você está usando. Conseguiríamos dar transparência para o consumidor de como o produto que você comprou foi confeccionado. Estamos caminhando para total consciência de uma moda mais sustentável e dar essa opção aos consumidores é um super diferencial.
Isso já está sendo pensado na China, tem uma startup chamada VeChain que já atua nessa frente.
Além disso, quando a gente pensa em e-commerce e entregas, Blockchain também pode servir como ferramenta de rastreamento e ter essa sensação de total controle da sua entrega. É super interessante pensar o desdobramento dessa tecnologia.

ECOERA: Sustentabilidade, consumo consciente. São assuntos que as pessoas pesquisam nas ferramentas de busca? De que forma? Por boas práticas, produtos/marcas?

Quando falamos sobre o território de moda especificamente, slow fashion foi responsável por mais de 1 milhão de views no YouTube em 2017. Para você ter idéia, as buscas por roupas usadas cresceram 97% no último ano. As pessoas estão querendo discutir esse assunto através de temas como upcycling, minimalismo, detox, armário cápsula. Elas querem “hackear o look” e usá-lo de diferentes formas. As pessoas conseguem ser super criativas e falar sobre esse tema de uma forma diferente e que engloba mais gente sem cair no “eco-chato”. Muito pelo contrário, falar disso é legal, é bacana e pode ser amplamente discutido.
Uma marca que gosto bastante é a Everlane. O mote da marca é: “Modern Basics. Radical Transparency”. Ao comprar da marca, você tem transparência total do custo de cada etapa da cadeia e o quanto do seu dinheiro vai para cada passo. É super interessante por ser transparente e aberto. Você realmente sente e acredita que a marca tem um propósito.