Sustentabilidade, Feminismo e Mulherismo.

Por Gi Caldas

 

Precisamos falar da mulher negra dentro da nossa sociedade e do quanto o seu bem-estar tem a ver com a sustentabilidade e com o desenvolvimento de uma comunidade, de uma cidade, de um país. O quanto o Feminismo, mesmo o Negro, não é suficiente para garantir equidades de identidades, sociais e econômicas e que a solução pode estar no Mulherismo Africana, que é baseada em princípios Maáticos, onde a mulher é o eixo da comunidade, sem endemonizar atividades femininas, como a maternidade por exemplo, e também o lugar do masculino em família e socialmente. Não estou falando aqui de relações sexistas na estrutura social eurocentrada em que vivemos, não observe deste lugar, mas de um novo lugar, onde há equidade de gênero através das diferenças, isso é o Mulherismo.

 

O que precisamos rever para avançar em sustentabilidade?

Não conseguiremos avançar como uma sociedade sustentável e continuar afirmando que o feminismo vai transformar o mundo, sem olhar a mulher preta e dizer onde é o seu lugar, com suas peculiaridades, no quadro geral.

A Sustentabilidade é utópica ao desconsiderar que existem divisões estruturais como o racismo, nascido de um sistema eurocentrista e que “desempodera” a todos, e principalmente ao indivíduo Preto, baseado em uma competição de privilégios, há séculos. Um sistema que rouba, se apropria e negligencia a identidade africana e o  processo de identidade pessoal do Preto de se ver como preto e SER Preto. Há uma engrenagem aqui que está lenta e quase paralisando o desenvolvimento do mundo, pelas vistas grossas, ao racismo.

A intenção não é a de levar você a duelar com as teorias desses movimentos, mas de levar à reflexão os impactos destes na estrutura social e cultural brasileira e o quanto algumas acabam favorecendo a perpetuação de um sistema desigual, sexista, patriarcal e opressor.

Para a mulher Preta: o feminismo te serve? Socialmente, observe-se neste limbo, pois até hoje lhe falta o direito à uma identidade. A identidade do que é ser uma mulher Preta Afro e descendente em território brasileiro. Você é representada e ocupa um mesmo lugar de igualdade, lugar de fala e o seu rosto, estão no mesmo nível e espaço de uma mulher branca no feminismo ocidental?

Para todos: o feminismo se firma na identidade individual da mulher construída dentro de uma sociedade patriarcal, em um lugar sub-julgado, cheio de papéis e que deverá ter suas formas sociais opressoras transformadas. Há uma busca pela Equidade de Gênero, melhores condições e acessibilidade no mercado de trabalho, liberdade sexual e intelectual e outras condições historicamente negadas, sendo as mulheres obrigadas a preencher um lugar criado pelo machismo. A luta do feminismo no século XIX, pela inserção das mulheres no mercado de trabalho, quando as mulheres Negras sempre estiveram nele e foram invisibilizadas, só esse detalhe já demonstra agendas de raça, com necessidades diferentes. Enquanto a mulher branca avançava na sua escala corporativa, a mulher negra estava na sua cozinha e cuidando de suas famílias.

Lélia Gonzalez foi uma das vozes mais fortes dentro do feminismo brasileiro e não somente observou agendas diferentes dentro do movimento, entre mulheres brancas e pretas, mas germinou o feminismo negro em nosso país. Uma vez, lutando pelos direitos femininos, mulheres pretas tem outra luta feminina solitária, a de ser vista como mulher dentro de uma sociedade eurocentrada e de ter os mesmos direitos e privilégios que as mulheres brancas conseguem. Há de verdade a  sororidade? O feminismo negro surgiu afirmando que o racismo existe e que a mulher branca também faz parte do problema, no racismo estrutural. As diferenças entre mulheres pretas e brancas são pautadas por questões sociais, econômicas e emocionais. Como falar sobre sustentabilidade, sem reconhecer esse processo no meio social e de nossas políticas públicas e ideológicas?

O Mulherismo, que não é uma vertente do Feminismo Negro, segue uma agenda própria baseada no matriarcado africano, onde a saúde feminina, física e mental são pontos de partida. O Mulherismo Africana é onde resgatamos o poder das Mães Africanas, como líderes. Estas reconstroem e desenvolvem socialmente uma integridade cultural que defende os princípios Maáticos: equilíbrio, harmonia, reciprocidade, justiça, verdade… De um modo circular e em comunidade. A nutrição ideológica e a ordem vem das mulheres, que não tem como prioridade confrontar as diferenças entre gêneros, mas as ordenar com o mesmo peso na organização dessa estrutura. Podemos vislumbrar a sustentabilidade inerente neste movimento? Sim, pois no Mulherismo a estrutura que prioriza os princípios de Maat, apontam equidades em todos os setores da sociedade.

O Mulherismo vai para além das agendas feministas importantes questionadoras, da opressão e das limitações do pensamento eurocêntrico. Este, além da busca de uma identidade, que se inicia com o ¹Sankofar e adentra a ancestralidade, o mítico e o sagrado, é uma ocupação de si, é também a atenção à reparação histórica diante da Diáspora vivida pelo Povo Negro. Não basta para a Mulher Preta, ter que lidar com a questão do sexismo que pauta a causa feminista, ela ainda têm de se reconhecer em intelecto e existência, superando o desenraizamento de suas culturas ancestrais. E qual o caminho mais simples para começarmos a sermos sustentáveis com efetivos de mudança? Contando a história através de escritores, filósofos e historiadores pretos, como Cheika at Diop, Muniz Sodré, Lélia Gonzalez e tantos outros. Colocando o olhar com consciência Preta nas lutas, levantes e linhas de tempo, ações e participações e que são negras, mas foram invisibilizadas.

A abertura de espaços e de representatividade é a primeira ação da reparação histórica. É a solução sustentável, refletida no social, econômico e emocional construtor da identidade brasileira e que pode, sim, se transformar e evoluir para um lugar integrativo, considerando todas as diferenças. A atitude Mulherisma integra a todos, sem polarizar e sem separar. Ela une, para distribuir as funções e papéis com o mesmo lugar de respeito e que são orquestradas de uma maneira onde uma função depende da outra e os papéis de homem e de mulher são co-dependentes, sem desonrar as necessidades de um para com o outro. Sem privilegiar um, entre os diferentes gêneros e orientações, pois todos são importantes e necessários neste círculo.

 

1- Sankofar. É um movimento pessoal de cada corpo preto, de resgate de suas raízes ancestrais familiares, religiosas, artísticas e éticas. Dentro de um código diverso do que é ser negro, é uma cosntrução de identidade única afrocentrada. Sankofar vem do código ideográfico Adinkra Sankofa, dos povos Acãs, representado por um pássaro que volta a cabeça à cauda. O símbolo é traduzido por: “retornar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro”.” Recorte de Ocupação Abdias Nascimento.