Muito grande, muito pequena, com imperfeição no formato, na cor…cerca de 10% de toda a produção de frutas e legumes nasce fora dos padrões estéticos exigidos pelo varejo, e por isso acabam a sendo descartados.

Paulina Chamorro conversou com o Arthur Arakaki, um dos sócios do Fruta Imperfeita, uma empresa paulistana que compra direto do produtor aquilo que seria descartado e monta cestas para entregar em casa. Cestas de frutas e verduras cheias de sabor, formatos e nutrientes!  Em quase dois anos, livraram do descarte por preconceito 500 toneladas de alimento!

Existe preconceito até com o alimento?

Sim. Infelizmente ainda existe bastante preconceito. Inclusive, a gente surgiu pra combater esse preconceito com alimentos que são tortinhos ou que têm uma casca raspada, mas que na verdade são perfeitos pra consumo. O que a gente busca é o sabor dentro dessa fruta ou desse legume, independente da aparência.

Existe uma seleção que acontece antes do produto chegar ao consumidor, mas existe também uma outra etapa que é a seleção feita pelo consumidor. De qual etapa nós estamos falando?

Nós estamos falando de toda a cadeia. A grande maioria dos produtores no Brasil hoje são pequenos produtores, que têm muita dificuldade de vender tudo o que colhem porque nao tem quem compre. O próprio comprador, principalmente a rede varejista, quer apenas os itens bonitinhos, que caibam na bandeja deles pra que eles possam embalar tudo certinho. Só que a colheita é a mesma. Aqueles itens que o produtor não consegue vender, por ele ser um pequeno produtor, de agricultura familiar, ele não tem força de venda. Então ele joga fora porque pra ele acaba sendo mais barato jogar fora do que se esforçar novamente pra tentar vender. E a gente identificou isso. O nosso intuito é ajudar esses pequenos produtores a rodarem toda a colheita. E mesmo assim, a gente ainda não consegue absorver tudo o que eles produzem, que é um volume muito alto.

fruta imperfeitaA ideia central é dizer que aquela fruta ou legume feio ou torto pode ser gostoso também?

É isso mesmo. Só porque tá torto ou tá feio quer dizer que é ruim ou tá estragado? Não. O sabor é o mesmo. Muitas vezes pode até ser mais saboroso do que aqueles, entre aspas, perfeito. A gente tá conseguindo conscientizar cada vez mais pessoas, mas infelizmente esse preconceito ainda é muito grande.

Como é o trabalho que vocês fazem junto com os produtores?

A gente tem cerca de trinta produtores parceiros. Todo final de semana eles chegam pra gente e falam quanto eles têm “sobrando”, ou seja, que eles não conseguiram vender. E vale destacar que a gente só pega frutas e legumes da época, mais uma ferramenta pra combater o desperdício. Hoje a gente tá com quase 1500 clientes, o que já nos dá uma referência de demanda semanal. Aí, de acordo com essa nossa demanda, pra não sobrar nem faltar, a gente fala com os produtores pra ajudá-los a direcionar esses itens, com a preocupação também de garantir a variedade de produtos entregues.

Qual o volume de alimentos por mês diante desses números: 1500 clientes e 30 produtores? 

A gente já existe há dois anos e meio, mais ou menos, e nesse período a gente já conseguiu salvar mais de 500 toneladas de alimentos que seriam jogados fora. E a nossa caixinha é de papelão e retornável. A gente também já conseguiu salvar mais de 45 mil caixas de papelão que vão e voltam com nossos clientes.

Como vocês enxergam a demanda e a possibilidade de crescer e trabalhar em rede?

Existe sim a possibilidade de expandir. A gente funciona com delivery, apenas na cidade de São Paulo, por enquanto. ?Vocês trazem pros restaurantes? A gente tem parceria com alguns restaurantes, mas são poucos. O nosso principal cliente é a pessoa física, que recebe o produto em casa tanto pela conveniência como pelo preço, que é mais em conta, e também pelo propósito. Então nossos clientes são pessoas físicas que querem ajudar a gente no combate ao desperdício. São poucos os restaurantes e cafeterias que temos como clientes.

Qual segmento de alimento vende mais? Vocês já têm um ranking dos alimentos mais consumidos?

Ao longo dos anos, isso foi muito imposto pelos varejistas. Tanto que se você for no supermercado você vai ver doze, treze itens no máximo. E os mais comuns são maçã, banana, cenoura, cebola, batata inglesa, que é aquela batatinha amarela, abobrinha, manga, abacate; mas o interessante da nossa proposta é que além desses itens corriqueiros, que você sempre encontra no mercado, a gente oferece produtos que o consumidor à vezes não conhece. A gente já teve na nossa linha, por exemplo, cupuaçu, jamelão, cará, seriguela. São itens que as pessoas veem mas não sabem direito o que fazer, e até muitos dos nossos clientes falam “Nossa! O que é esse item diferente que eu recebi?!”. A cenoura, por exemplo, a gente só conhece aquela que tem a cor laranja, mas existe cenoura branca, cenoura roxa; inhame, a gente também tem formas diferentes. Ou seja, existem variedades dos mesmos itens que a gente já conhece, mas que as pessoas nunca tiveram contato. Isso é bom pra gente divulgar mais esses itens que, além de estimular a criatividade do consumidor, também ajuda a escoar a produção. Afinal, esses itens são produzidos, o problema é que não há procura suficiente pros produtores conseguirem vendê-los. Então a gente tem esse papel também. Uma vez, um agricultor que produzia um brócolis chamado romanesca, diferente dos brócolis que estamos acostumados a ver no mercado, ele não tinha pra quem vender esse produtos, mas mesmo assim ele insistiu na produção e viu que a gente podia ajudá-lo. Então a gente acaba saindo um pouco desse beabá do hortifruti pra também introduzir novos itens na casa do consumidor.

Ao ampliar uma cultura alimentar, você acaba ampliando também a variedade de nutrientes.  Num país de tamanha biodiversidade de fauna e flora, podemos transferir o olhar também para essa riqueza que existe na variedade de alimentos.

Sim. Essa variedade é muito importante. Sair do padrão e completar mesmo o prato, estimular a criançada a comer um prato mais colorido, apresentar formas diferentes pra ver se a criança não vira o rosto quando fala em vegetais, então isso ee extremamente importante, que é o que a gente também defende.

Como as pessoas podem fazer parte dessa rede de combate ao desperdício? Quais outras formas de participação as pessoas podem ter? E quais os canais para que entrem em contato com vocês?

A gente funciona num sistema de delivery e assinaturas. É só entrar no site www.frutaimperfeita.com.br . Lá as pessoas podem encontrar todos os nossos planos, desde a cestinha de três quilos até a cesta maior, que é a de dez quilos. A pessoa pode comprar só legumes, só frutas, ou mista, meio a meio. O mais importante é que as pessoas nos ajudem a divulgar o propósito de combate ao desperdício dos alimentos. É muito importante olhar pra si mesmo, pra sua geladeira e, em vez de jogar algum item fora e pedir uma pizza, por exemplo, a pessoa pode procurar uma receita na Internet e ver o que pode ser feito com aquele item que ela ia jogar fora. Às vezes você acha que não tem o que fazer com aquilo, mas a Internet é tão rica, com certeza você vai achar alguma receita diferente pra fazer com esse item. Então o importante é estimular, falar pro vizinho, pro pai, pra mãe, quando você vir alguém colocando mais comida no prato do que dá conta de comer, ou pedindo dois ou três sucos de uma vez ao mesmo tempo e deixando metade do copo pra pedir uma outra coisa, vale um alerta. É só parar pra pensar um pouquinho, terminou de comer ou beber, aí você pensa em um outro item, uma sobremesa ou uma outra bebida. A mudança tem que partir de dentro de casa pra depois ir pra fora. É isso que a gente pede. Claro que ficaríamos muito felizes de aumentar cada vez mais nosso número de assinantes, mas o principal pra gente é que o propósito seja mais difundido e mais divulgado. Independente das pessoas serem ou não nossas clientes, o que a gente quer é mudar realmente esse preconceito que existe com as pessoas, com a vestimenta, com o cabelo e principalmente com o alimento.