#eatlocalthinkglobal

Recentemente dois eventos independentes organizados pela elite da gastronomia paulistana chamaram a atenção para o modo atual de produção e distribuição de alimento. O primeiro encontro, realizado em dezembro, discutiu o desperdício de comida. “Não Joga Fora!” aconteceu na Casa Manioca, sob o comando dos chefs Helena Rizzo (Maní) e Alex Atala (DOM), com a companhia de Pedro Diniz (Fazenda da Toca). Não à toa, convidaram a presidente da Food Tank, Danielle Nierenberg, para enriquecer a conversa. Afinal, são jogadas fora 1,3 bilhão de toneladas de alimento por ano no mundo (FAO 2013), cerca de um terço do que é produzido: 10% é perdido no campo; 50% no transporte; 30% na distribuição; 10% no varejo e consumidor final.

Na outra ponta da cadeia, está a forma como produzimos alimento hoje no mundo. Este foi o ponto de partida para o Seminário FRU.TO, que aconteceu em janeiro, sob a bandeira do Instituto ATÁ. Alex Atala (ele de novo!) e o produtor cultural Felipe Ribenboim convidaram uma série de profissionais das mais diversas áreas apontando alternativas para que cada vez mais gente tenha acesso a uma comida de qualidade: uma a cada nove pessoas no mundo vai dormir com fome, formando um contingente com mais de 800 milhões, apesar de se produzir quantidade suficiente para alimentar toda a população mundial.

Essas ações, assim como o “Banquetaço” citado na estreia desta coluna (https://www.portalecoera.com.br/gastronomia/do-prato-ao-prato-banquetaco-sp/), são fundamentais para inspirar a criação de políticas públicas que estimulem o surgimento de novos mercados e, assim, possamos ver as transformações que queremos. Ou seja, o aumento da produção e distribuição de alimentos de qualidade sem o uso de fertilizantes e defensivos químicos, nem sementes transgênicas. Assim, teremos não só um mundo com mais pessoas saudáveis, como também contribuiremos para a recuperação do solo, do ar e de nossas águas. A agricultura limpa e justa passa por técnicas e soluções de preservação do meio ambiente. Ao contrário da monocultura com grãos modificados geneticamente (para saber mais, aqui uma reportagem que fiz com um dos maiores especialistas da área: https://revistatrip.uol.com.br/trip/menu-des-confianca)
o cultivo de alimentos de forma natural precisa da biodiversidade para produzir bem. É uma economia fundamentada na abundância, e não na escassez.

É por essas e outras que a forma como comemos, o tipo de comida que compramos e o modo como a consumimos pode realmente mudar o mundo. Se você quer fazer a sua parte e não sabe por onde começar, aqui vão algumas dicas:

– Privilegiar os produtos locais e sazonais; os orgânicos e vendidos sem embalagens; aqui o mapa da venda de orgânicos no país: https://feirasorganicas.org.br/

– Testar novas receitas aproveitando cascas, sementes e bagaços dos alimentos; e, para começar, sugiro a ótima e pioneira Sonia Hirsch que inclusive ensina como o inhame pode ajudar na prevenção da febre amarela: https://soniahirsch.com.br/2018/01/23/dengue-inhame/

– Manter um minhocário/composteira em casa para transformar em adubo o que iria para o lixo; neste caso indico os sites de venda online da Morada da Floresta (www.moradadafloresta.eco.br) e Ecoisas (www.ecoisas.com.br) . Mas você pode montar a sua composteira a partir de materiais recicláveis e doações, como neste tutorial:

– Usar o composto orgânico para plantar algum alimento, nem que sejam ervas e temperos. Entre para o grupo! https://www.facebook.com/groups/horteloes/

Por fim, veja o excelente documentário “Taste the Waste”. O cineasta independente Valentin Thurn (#eatlocalthinkglobal) destrincha a cadeia de alimentos com revelações chocantes! Você vai ser outra pessoa depois desta. Aqui, com legendas em português:
http://tastethewaste.com/info/film

 

Fernanda Danelon é  paulistana, jornalista, ambientalista e empreendedora social. Atuou como repórter e editora durante 15 anos. Há três anos fundou o Instituto Guandu e criou o projeto “do prato ao prato”, transformando o que seria lixo em comida, através da compostagem, e usando o adubo em hortas urbanas, promovendo assim a educação ambiental e a segurança alimentar.