Uma moda mais justa, mas justa para quem?

Por Rafael Silvério

(Designer e criador da Silvério Brand e Guardião do movimento VAMO – Vetor Afro-Indígena na Moda).

Hoje, precisamos falar de como a sociedade está construída em cima de uma maioria inferiorizada, principalmente das mulheres negras retintas, que são o solo para fortalecer todo o capricho branco.

Vamos agora retrogradar antes de 1500, quando o Brasil já era habitado pelos povos originários que foram massacrados e colonizados por homens brancos que se julgavam superiores aos nativos. E nós, pretos? Ah, “brother, brother, brother” – se você não pegou essa referência, sugiro que ouça “What’s Going On”, canção do álbum que carrega o mesmo título do cantor afro-americano Marvin Gaye e que fala sobre os direitos civis americanos de 1971 – nossos ancestrais foram capturados, jogados em navios negreiros e os sobreviventes foram trazidos para sustentar uma sociedade branca que nunca quis fazer o trabalho duro.

Você pode achar que isso nada tem haver com moda, pois tem!

Até hoje, uma parte considerável da mão de obra que vive em sistema escravagista para sustentar grandes marcas de departamento e até o pseudo luxo nacional é majoritariamente negra, isso quando essa mão de obra não é importada dos países latino-americanos vizinhos. Tudo para promover a confecção de artigos que irão atender somente quem tem acesso e poder aquisitivo, sendo a maioria desses consumidores mulheres e, porque não dizer, homens brancos. E você pode contra argumentar afirmando que há visibilidade nas passarelas e nas campanhas publicitárias de moda, mas a verdade é que isso continua sendo a síndrome do branco colonizador, ao achar que está dando uma grande oportunidade que mudará qualquer situação predatória que o sistema racista já tenha nos exposto, sendo que as equipes de trabalho não contemplam nem a metade de pessoas pretas (e se falarmos da mulher preta retinta o abismo é ainda maior).

Atuo há mais de 10 anos na moda e nunca consegui um emprego fixo na área, tendo  sempre sido colocado como “muito talentoso para a vaga”. Aos poucos, como em gotas de soro, isso minou a minha auto-estima a ponto de desenvolver uma ansiedade que carrego até hoje. Depois de um tratamento terapêutico para aprender a lidar com essa condição, senti que empreender seria a única forma de colocar em prática tudo o que absorvi estudando em uma das faculdades de moda paulistana mais renomadas do Brasil, um feito graças ao auxílio de uma bolsa de estudos. Assim como tantos outros pretos criativos, abri a minha marca sonhando que as dificuldades seriam menores. Doce ilusão. A moda que continua sendo racista em toda a sua estrutura, sempre me colocou em um lugar de tolerância, mas nunca de pertencimento. Pensei em romper o círculo inúmeras vezes pelos vários desafios postos, que durante a pandemia não foram diferentes dos de outros afro empreendedores.

 

Uma pesquisa realizada pelo Sebrae em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), de 29 de maio à 2 de junho de 2020, mostrou que entre 7.403 empresários entrevistados, 70% dos negócios conduzidos por negros estão localizados em municípios que tiveram fechamento parcial ou total dos estabelecimentos, enquanto 60% dos negócios liderados por brancos atuam em locais com restrições. Além disso, 39% dos empreendedores brancos possuem negócios onde houve maior reabertura, ao contrário dos empreededores negros, que são apenas 29%. De acordo com a 4ª edição da pesquisa “O impacto da pandemia de coronavírus nos pequenos negócios”, os empreendimentos mantidos por negros sofreram mais impacto porque não conseguiram funcionar, principalmente por atenderem em sua maioria (45%) somente de forma presencial. Ao contrário dos 40% dos empreendedores brancos que conseguiram continuar os negócios com o auxílio de ferramentas digitais, 32% dos negros fizeram uso desse tipo de recurso por meio de site e de aplicativos, entre outros. A amostragem identificou ainda que, entre os empreendedores negros, a maior proporção (70%) é de Microempreendedores Individuais (MEI), em sua maioria mais jovem, formado por mulheres e com menor nível de escolaridade em comparação aos empreendedores brancos. E os dados só nos deixam mais assustados:

“Entre os negócios conduzidos por negros, 45% não conseguiram funcionar por só existirem presencialmente, entre os brancos a proporção foi 36%. Há entre os empreendedores negros, maior proporção de MEI, negócios mais recentes e que faturam menos (39% a menos).”

“Entre os empreendedores negros, é maior a proporção de jovens, mulheres e pessoas com baixa escolaridade que utilizam menos redes sociais, aplicativos ou internet para vender, mas gostariam mais de passar a usar. Enquanto os negros usam proporcionalmente mais WhatsApp, os brancos usam mais Facebook e sites próprios.”

Os dados comprovam que mesmo dotados de talentos e de uma ligação ancestral com o tear, tecer e coser, as oportunidades não estão postas da mesma forma que os acessos e a atenção de figuras que podem realmente abrir oportunidades ainda tão raras. Mesmo para mim, um homem preto de pele clara escrevendo aqui sobre esse cenário, ainda não se pode naturalizar de maneira racialmente proporcional. Enquanto você se pergunta o que tudo isso tem haver com sustentabilidade, eu lhe digo: diminuir as desigualdades sociais é a ODS de número 12 das 17 que estão na agenda 2030 da ONU para desenvolvimento sustentável. As equidades dentro dos espaços de poder ainda são quase nulas e, mesmo quando há o trabalho de interação, ainda é invisível. Ter autonomia e liberdade de expressão em um território que o presidenciável desvalida o trabalho midiático, faz com que a opressão se torne ainda maior. 

Quero ser chamado e pautado para além das causas sociais, ser lembrado para além da minha cor de pele e por toda a minha contribuição para além da Moda. Essa justiça social e qualidade do meio ambiente não podem ser privilégios acessíveis às custas do sangue da maior parte da população brasileira que vive espremida dentro das periferias.

Esse espaço do VAMO (Vetor Afro-Indígena na Moda) dentro deste portal sempre será sobre desnudar o véu separatista que oprime e inferioriza os pretos e os povos originários. Afinal, o movimento é formado por um time de profissionais interraciais e nasce para iniciar um processo reparatório na moda nacional onde pretos e indígenas possam ter ferramentas anteriormente negadas pela estrutura racista do mercado.

VAMO é um chamado para o exercício de uma educação através da descolonização do pensamento eurocentrista e tem como objetivo criar espaços, métodos e ações equitativas que viabilizem, valorizem, empoderem e transformem a realidade e o pertencimento da população afro-indígena multi potencial na indústria e na sociedade.

Esperamos que essa parceria frutifique e que de tempos em tempos vocês encontrem aqui uma base sólida para um pensamento descolonizado e livre o suficiente para enxergar com mais afetividade os corpos de outras cores, gêneros e raças. 

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