Vivemos novos tempos. Com mais acesso à informação, os consumidores buscam produtos que tenham o menor impacto possível no meio ambiente, querem saber de onde vem e como foram feitos.

E justamente para marcar esse tempo que vamos falar da marca carioca Maré Relógios, idealizada pelo designer João Victor Azevedo, também professor do Departamento de Artes e Design da PUC-RIO.

A empresa produz relógios lindos, e toda a beleza estética se estende à cadeia de produção. Os materiais usados são madeiras reaproveitadas, tecidos prensados e tintas orgânicas.

Conversamos com o João Victor, que contou um pouco da trajetória e os conceitos da Maré. Dá uma olhada!

ECOERA – Quando decidiram criar a Maré? Ela já nasceu com o conceito de reaproveitamento de materiais?

A Maré surgiu em 2015, no momento em que o Rio estava na “entressafra” da Copa do Mundo e Olimpíada. A cidade estava passando por mudanças, quando você saía na rua, via muita obra e muito descarte. Especialmente na região do Porto, muitos casarios foram demolidos – caçambas cheias de lixo e madeiras incríveis jogadas fora. Na PUC também observei descarte, na oficina e também os pallets que sobram da compra de equipamentos, e é uma madeira jogada fora. Então começou a surgir esse novo olhar a partir do descarte da madeira, que é muito grande no Brasil. A madeira demora 50, 60 anos para chegar na fase em que podemos cortá-la, então é absurdo que ela seja usada uma vez e jogada fora. A Maré surgiu daí, da vontade de reutilizar essas madeiras, que são muito nobres. Eu já tinha trabalhado com relógios antes – todo designer de produto tem uma tríade: cadeira, luminária e relógio de pulso! – e pensamos por que não produzir relógios de pulso de madeira e trabalhar os ciclos; uma madeira que já tem história. Além da madeira, pensamos em reduzir ao mínimo o impacto do produto: mostrador com tintas orgânicas (urucum, açafrão, cacau), e pulseiras com sobras de couro, lona recicladas, e câmara de pneu reutilizada.

João Victor na montagem dos relógios

ECOERA – Como são produzidos os relógios? E como descobriram que o tecido prensado poderia ser usado neles também?

Os relógios são todos produzidos por meio da fabricação digital até metade do caminho, e depois o acabamento e montagem à mão. Unimos dois mundos, a alta tecnologia e a alma do produto nesse acabamento artesanal. Uma série de máquinas operam via computador: tem a que esculpe o relógio na madeira, tem a cortadora e gravadora a laser, e uma impressora 3d que auxilia nos protótipos. Isso dá uma agilidade e uma escala de produção em que conseguimos ter um custo reduzido. Costumamos dizer que somos a menor indústria do mundo: duas pessoas que trabalham em uma sala de 9m2, com capacidade produtiva de 500 unidades/mês. A fabricação digital é ultra presente na Maré, e foi o que possibilitou a existência da empresa – se não tivéssemos essas máquinas, inviabilizaria o produto.
Sobre o tecido prensado, a gente desenvolveu essa técnica de produção para madeira, e a partir disso começamos a olhar para outros materiais que poderiam ser usados. Como professor e pesquisador, fiz doutorado em laboratório com olhar para materiais descartados e redução de impacto/consumo de energia. Trabalhamos muito com laminados – de bambu, de terra, e começamos a ver a questão do jeans, que é um material poluente tanto na produção quanto no descarte. Então pensamos em reutilizar esse material, juntando o jeans com essas técnicas de laminação, e fizemos o que chamamos de jeans prensado – várias camadas do tecido prensado com resina. Damos uma vida muito mais longa ao jeans.

Maré feito de jeans prensado

ECOERA – Qual é o perfil dos seus clientes? Acham que uma marca possa passar mensagens por um mundo mais consciente? De que forma a Maré influencia seus consumidores?

Nosso perfil de consumidor varia muito. A maior parte é homem de 25 a 35 anos (que compram online) e nas feiras que fazemos, são mulheres de 45 a 65 anos. O foco são as pessoas que buscam a redução do impacto, que entendem o produto como aliado do meio ambiente. Temos muitos casos de clientes que não usavam relógios há muito tempo, mas que passaram a usar por conta do propósito do produto, porque estão buscando consumir de forma mais consciente.
Toda nossa comunicação e processos são muito transparentes, fazemos convites para workshops, estamos abertos a conversar sobre consumo consciente. Muita gente ainda desconfia, acha que é uma pintura “verde” para vender mais, por isso queremos sempre mostrar transparência na nossa cadeia de produção. Agora estamos tentando articular um movimento de impacto social, com uma série de ONGs e parceiros, como dar um retorno social a partir desse produto. Nós temos sim que incentivar uma nova forma de produção, de consumo, uma nova forma de relações.

Conheça o site e os produtos da Maré: marerelogios.com

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*Se você tem alguma sugestão de pauta bacana que gostaria que colocássemos aqui, manda para gente: contato@portalecoera.com.br