A cultura e realidade indígena, retratada pelo olhar dos próprios índios. Essa é a ideia da Oficina de Fotografia Ashaninka, um projeto de capacitação em fotografia na comunidade indígena Ashaninka do Rio Amônia, na Amazônia Acreana.

O projeto foi criado a partir de uma demanda das lideranças da comunidade, que enxergaram que a fotografia poderia ser um novo instrumento de defesa de seu povo e de seu território.

Eles pretendem com isso, criar sua própria narrativa sobre sua cultura, documentar seus diversos projetos em andamento, além de criar um banco de imagens gerenciado pela própria comunidade.

Já foram realizados dois módulos de oficinas em 2016 e 2017, que abordaram princípios básicos da fotografia e formação da imagem a partir da luz. Para realizar o terceiro módulo em 2018 – de fotografia digital – e concluir o projeto, foi lançada uma campanha de financiamento coletivo que está no ar nesse momento.

Este é um projeto de Pedro Kuperman em parceria com Instituto-E e em cooperação com a Associação Apiwtxa Ashaninka. Confira a entrevista que fizemos com ele!

ECOERA – Como começou seu envolvimento com os ashaninkas?

A primeira vez que fui à Aldeia Apiwtxa Ashaninka, foi como fotógrafo pela Osklen. A relação da Osklen e do instituto-E com os Ashaninka já é de longa data, nessa época (2014 – 2015) a Osklen fez uma coleção em parceria com os Ashaninka e eu fui fotografar e gerar imagens para o início do projeto. No ano seguinte, voltamos à aldeia com Oskar Metsavaht, Nina Braga (Diretora do Instituto-E) e equipe, para a imersão artística do Oskar e para realização do documentário sobre o projeto. Ao final desse trabalho, conversei com Benki Piyãko, líder Ashaninka, sobre meu desejo de realizar um trabalho de fotografia com eles. Benki me falou então dessa demanda da comunidade – aprenderem fotografia para contarem suas próprias estórias, e para fortalecerem seu território, seu povo e sua cultura.

ECOERA – Qual a importância hoje de trabalharmos no empoderamento de comunidades para que elas tenham sua própria voz?

Esse processo de empoderamento com uma ferramenta de comunicação muda o caráter etnocêntrico da história onde os outros sempre falaram por eles. Eles querem contar suas próprias estórias, querem mostrar seus olhares, e isso é de uma importância sem igual. A fotografia está entrando num processo de ganho cultural, está sendo incorporada pela cultura Ashaninka, e a partir daí veremos como ela se manifestará através de seus olhares.

ECOERA – Qual a força de uma narrativa de um povo contada por eles mesmos?

O Xamã da Aldeia Apiwtxa, Moisés Piyãko falou em seu depoimento pro documentário que produzimos na oficina de 2017, que as pessoas que vêm de fora não têm o tempo que eles têm pra documentar sua cultura, e não enxergam as coisas como eles. Nosso olhar vai ser sempre de fora, um olhar que enxerga a partir de nossas próprias referências. Ao criarem suas próprias narrativas, os Ashaninka pretendem se libertar desse olhar estrangeiro e contar, através das imagens, coisas que ainda não sabemos, que nunca vimos. O resultado desse ganho cultural que será a fotografia dentro da cultura deles, nós só vamos saber daqui a um tempo…

ECOERA – Os Ashaninka têm uma beleza muito particular, tanto de suas roupas, modo de vida e adereços. O que te encanta mais?

Eles têm um senso estético muito apurado, e se comunicam naturalmente por meios visuais. Suas pinturas faciais, os padrões das roupas, as cores, tudo comunica algo. O mais incrível pra mim é observar a naturalidade com a qual veem se expressando através da fotografia nas oficinas. Podemos observar desde o início que suas imagens possuem uma expressão muito forte e olhares autorais.

Conheça mais sobre o projeto, sobre a campanha e faça sua colaboração: benfeitoria.com/oficinadefotografiaashaninka